Presidente da maior organização de índios na América do Sul (COICA) diz que órgão federal é "assistencialista e tutelar"

Eduardo Scolese

Agência Folha

10 de junio de 2003

Presidente da principal organização indígena da América do Sul, o índio brasileiro Sebastião Manchineri, 33, diz que a Amazônia está "furiosa" com a ação de traficantes e madeireiros. Para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa pelo menos sinalizar suas intenções para a causa indígena e de imediato extinguir a Funai (Fundação Nacional do Índio), uma entidade "assistencialista, burocrática e tutelar".

Desde 2001, Manchineri, ou Haji Yine (nome indígena), preside a Coica (Coordenadoria das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica), que representa 400 povos indígenas de Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Seu mandato vai até 2005.

Criada em 1984 no Peru e hoje com sede no Equador, a Coica se mantém com doações de ONGs e governos de países europeus. A seguir, trechos da entrevista, por telefone, de Quito (Equador).

Como o sr. analisa a situação indígena na América do Sul, principalmente na Colômbia, onde há o tráfico e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)?
Sebastião Manchineri - A situação é muito conflitiva na Amazônia. É violência total. A Colômbia é um exemplo claro disso. Não temos muita opção mesmo. Nem é difícil entrar [no narcotráfico]. O difícil é sair dessa situação porque esses atores vêm e nos puxam para um lado. Depois vêm os atores do governo, os paramilitares. Entre a guerrilha, o governo e os paramilitares, ninguém sabe em quem confiar. E os índios ficam na encruzilhada, sem alternativa, com os três grupos nos julgando como inimigo, traficante, espião, colaboradores. Ou seja, a gente já é pouco [na Colômbia] e, nessas circunstâncias, nos levam ao extermínio mesmo.
E em outros países?
Existem atos semelhantes na fronteira do Peru com o Brasil, como o narcotráfico e a ação dos madeireiros. As madeireiras têm a mesma prática do tráfico. A diferença é que elas têm a permissão do Estado. Mas os problemas são os mesmos, sofremos o mesmo tipo de injustiça. Não temos muitas alternativas. Temos pensado de maneira positiva, que a gente não vai ser eliminado assim tão fácil, mas parece ser um processo bastante previsível.
E a situação no Brasil, onde índios têm exigido demarcações de terra, invadido sedes da Funai e feito até pessoas reféns?
Temos visto o assassinato de líderes indígenas nos últimos meses, além das ameaças no Congresso Nacional. Um exemplo disso é a Raposa [terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, pleiteada por políticos locais]. As propostas de emendas querem acabar com nossos direitos constitucionais, como as demarcações de terra.
Que avaliação o sr. faz dos primeiros cinco meses de governo Lula?
Não que tenha piorado, mas as coisas vieram mais à tona. O governo não tomou posições firmes sobre o tema, precisa sinalizar qual é o horizonte que ele vai dar ao tema indígena. Ele não fez isso. Fica discutindo que vai reformular a Funai, colocando pessoas para assumir funções. Sabemos que isso não vai funcionar. A Funai tem de ser eliminada, criando um órgão novo, com idéias novas, pessoas novas, programas e ações novas.
Quais são as críticas à Funai?
A Funai é um órgão baseado em princípios assistencialistas e tutelares. Esse processo não é mais útil aos povos indígenas. A Funai tem um quadro impossível de se trabalhar. É tão burocrático, que as pessoas só vivem de favores.
Então qual seria um modelo ideal?
Precisamos criar um órgão ligado diretamente à Presidência que atue em coordenação permanente com as organizações indígenas, que seja eficaz tanto para a demarcação de terra como para agilizar as investigações sobre crimes.
O sr. tem acompanhado a situação de conflitos na fronteira do Brasil com o Peru, onde tribos isoladas estão guerreando com os Ashaninkas? Qual é a consequência disso para os índios brasileiros, mesmo com o foco estando do lado peruano?
Não podemos permitir que um grupo [de madeireiros] enriqueça em nome da miséria e da calamidade de outros povos. Temos orientado os governos [do Brasil e do Peru] a fazer uma proteção naquela área. Há um instigamento provocado [pelos madeireiros]. Eles querem o conflito para que os índios sumam daquela região e parem de denunciar o desmatamento.
Como o sr. avalia a participação política dos índios na América do Sul? Existe a possibilidade de um maior espaço?
Quando entramos na política para negociar direitos indígenas, passamos a não interessar mais para os demais [parlamentares]. Essa situação não é conveniente. No Brasil, a solução para a política indígena não é ser deputado, senador. A nossa possibilidade de continuar como povos é fortalecer nossos sistemas e organizações e valorizar as nossas ações internas. Se continuarmos querendo ser políticos, haverá cada vez mais crises de identidade.
Já se falou muito sobre uma suposta intenção internacional de intervir na Amazônia. O sr. teme que isso ocorra?
A Amazônia já está invadida. Em cada país há uma base dos Estados Unidos. Eles têm um forte controle externo em toda a região. No Brasil, eles estão em Alcântara [no Maranhão]. Esses atores vêm, fortalecem os grupos, encontram com os governos e depois justificam suas ações.
As Farc, os paramilitares, todos foram orientados e financiados por eles. Mas agora, quando o governo colombiano não tem mais o controle interno, [os EUA] vêm dar uma de bonzinho, dizendo que são a salvação para a paz. As Farc são um exemplo, uma justificativa de intervenção externa que afetaria todos os países amazônicos. Nossos governos não têm passado de meros expectadores.
Os povos indígenas precisam de alguns "subcomandantes Marcos" [líder zapatista, no México] para lutar por seus direitos?
odos nós buscamos ter tranquilidade e paz, mas quem perdeu um familiar com uma bomba jamais esquece. Eu quero dizer que as ações desses terroristas disfarçados de governo vão criar mais e mais violência. Somos guerreiros, e não guerrilheiros, e, por natureza, nos defendemos. Esperamos que os nossos mecanismos de defesa, que são as leis, sejam eficazes.

 
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